É O SACI URBANO

É O SACI URBANO

ENTRE ESTRIPULIAS E TRAVESSURAS

Aparições repentinas e clandestinas. Críticas e agulhadas numa forma lúdica e sensata ao mesmo tempo… Essas são as marcas deixadas pelo Sasu um personagem muito presente no cotidiano urbano das grandes cidades do ABC paulista e na capital. Não contente, invadiu também o Rio de Janeiro e ainda decolou escondido num vôo até a França e Cuba. Esse saci não tem regras nem limites, usa de sua liberdade pra expressar suas visões do mundo atual e a droga que consome suas origens, a ganância e a inveja…Confira esta exclusiva entrevista com a mente por trás da ideologia sacizística, Thiago Vaz. Sinta na pele a verdade nas palavras do Sasu. Afinal quem nunca se deparou com sua imagem pelas ruas, nos muros e viadutos? Quem nunca questionou quem será o Saci Urbano? Agora você saberá e entenderá suas razões…

 Por Cícero Martins

 -Qual foi à idéia inicial para criar o “É o Saci Urbano”?

 Assumir as minhas raízes; Evidenciar de forma simples e necessária na mídia clandestina, a figura dos povos afros descendentes e dos povos indígenas, já que os povos europeus ocupam todas às “mídias legais”. Necessidade de fazer algo que valesse a pena correrem certos riscos, não somente para a minha satisfação pessoal e sim para compartilhar-la de forma interativa com as pessoas que observa a rua e nela vê aquilo que não será televisionado.

 -Muitos acreditam que o criador por trás do personagem utilize da ideologia punk, outros dizem que suas aspirações venham do Hip Hop. Afinal qual a origem das temáticas do Saci Urbano?

 Eu Tenho maior interação com a cultura hip-hop, mas o trabalho tem um pouco de toda a cultura marginal, ou “subsolo”, como dizem os gringos. Na verdade o que inspira as temáticas do “Saci Urbano” é o cotidiano: é a observação; é a cólera da indignação; é a síntese da realidade reversa – coisa essa que só os sacis conseguem explicar.

  -Antes de lançar um episódio nos muros da cidade quais são os critérios para a criação de cada cena?

 Parece maluquice o que escrevo agora – Eu sou apenas um marcador de aparições do Sasu. Eu não sei onde vou fazer essas marcas (grafite) até olhar o local e perceber que ali houve uma aparição e eu a enxergo nitidamente. Logo sinto uma cólera para ir até o local e fazer a marcação… É um jeito de fazer a intervenção funcionar para alguma coisa…???? É preciso dialogar com a situação e a realidade de cada lugar para que não seja apenas mais um elemento visual no ambiente urbano.

 -Quantos lugares (cidades) e quantas pinturas com o personagem você já fez até o momento?

 Tenho arquivado mais de 150 registros das aparições do Sasu, mas se contar aquelas que eu não tive oportunidade de fotografar e que automaticamente foram apagadas soma-se, ao todo, quase 200 marcações. Em São Paulo o Sasu esteve por quase toda a área metropolitana fazendo aparições na capital e no grande ABC; também teve algumas aparições em Santos, na baixada santista e por falar em litoral ele também fez Ubatuba. No Rio de Janeiro ele fez aparições na capital carioca.

 -Quais são os objetivos para 2011 e o futuro do Saci Urbano?

 Confesso que se o Sasu me der uma folga vou descansar um pouco porque o ano de 2011 tem muitas aparições a serem marcadas, e já adianto que é uma série de aparições libertárias… Causará barulho, sim sinhô. No entanto, sinto que preciso criar outro personagem para não forçar aparições do Sasu de forma que eu corrompesse as suas características e a sua essência existencial, ou seja, para que eu não misture as coisas.

 -Imagine se o Saci Urbano ganhasse as eleições. O que ele faria em Brasília?

 Primeiro Expulsaria toda aquela tropa da elite do congresso e chamaria todos os seres folclóricos para ocupar as cadeiras do Senado… hahahaha. Falando sério… Pra começar ele abriria um processo para que as empresas de heranças “monárquicas” indenizassem todos os povos afros descendentes, os povos indígenas e a comunidade ribeirinha dessa terra, uma vez colonizada. Mas que essa indenização não fosse paga com dinheiro e bens materiais e sim com o respeito e a dignidade que toda pessoa humana merece. Os juros ficariam para proteger os animais e a vida vegetal.

 -Por que o Saci Urbano nunca mostra o rosto?

 Talvez ele esteja protestando sobre o padrão de beleza da sociedade, denunciando o crime doentio da vaidade; ou ele sabe que não é preciso ver para crer. No quesito folclórico, muitos alegam ter visto o saci por esses anos de Brasil, mas ninguém expressa com clareza como é a “cara” do bichinho. Eu particularmente já vi Sacis mas digo que é impossível reparar os detalhes porque ele é muito rápido e esperto, tudo isso para garantir sua liberdade.

 -Você (Thiago Vaz) desenvolve algum outro tipo de projeto/trabalho?

 Por questão de sobrevivência desenvolvo projetos culturais como oficinas, exposições, palestras e afins (comercial)…

 -Como surgiu o esquema com o francês Eric Marechal para que ele levasse na bagagem o Sasu e o estampasse pelo mundo a fora?

 Foram duas aparições até agora: uma em Cuba e outra em Paris, na França. O Eric me procurou depois de ter visto algumas marcações do Sasu quando ele estava em São Paulo. Trocamos “imeios” e ele me informou do projeto “arte de rua sem fronteiras” (que leva trabalhos de um país para expor em outro e daí por diante…) então eu aceitei a proposta, desde que ele me garantisse que libertaria o Sasu no estrangeiro… Foram alguns dias de agonia de pensar que o Sasu ficaria capturado e que seria vendido para algum gringo, mas, no entanto o Eric me enviou as fotos e eu fiquei super aliviado.

 -O Saci marcou forte presença na exposição “Folclore Urbano” no SESC Santo André consolidando ainda mais a sua existência nas metrópoles. Como se deu esse feito e o que o mesmo trouxe de retorno para o criador e a criatura?

 A Instituição me procurou e propôs que fizéssemos uma exposição com o Sasu trancafiado em telas e tudo o mais. Tive que jogar as cartas na mesa e mudar a regra do jogo, deixando bem claro que o Sasu não se vê enquadrado em nenhuma tela, pois ele teria que fazer as aparições na unidade de forma interventiva e como era o mês do folclore juntamos o útil ao necessário, porque já que lutamos na rua para a valorização e o reconhecimento pela nossa cultura popular, é plausível que devemos apresentar a arte nesses lugares também, desde que o acesso a arte seja gratuito como é na rua. O retorno foi simbólico para ambos: criador e criatura, Valeu a experiência mas o Saci Urbano logo voltou pra rua.

  -No embalo da copa 2010 o Sasu emplacou nas ruas e viadutos na forma mais clara de protesto trazendo em suas frases uma visão inversa da realidade momentânea. Enquanto a multidão, hipnotizadas pelo consumismo da febre futebolística o Saci nos mostrava a cruel verdade a nossa frente. Como nasceu a idéia dessa série?

 Inquietações… A cólera! Por ver toda a “nossa gente” entorpecida de ações midiáticas em prol do Gigantesco e poderoso ser onipotente deste novo tempo, o capitalismo. O verdadeiro inimigo do Saci Urbano.

  -E quanto às imagens do Saci estilingando os heróis da Marvel, DC e Disney? Que mensagem você pretende passar com essas aparições sacizísticas?

  É uma brincadeira muito séria porque eu acredito que esses personagens comerciais são e sempre foram instrumentos para promover o Imperialismo de outras nações sobre nós. É como se fosse um novo modelo de colonização através do Lúdico e da cultura “póp”. Portanto, o Sasu vem nos defender dessa invasão.

 -Já houve algum acontecimento inusitado enquanto você pintava nos muros?

 Recentemente eu fui salvo por um Brasileiro suburbano e miscigenado, assim como eu – Eu estava pintando na lateral de um viaduto, localizado no entorno da Nova estação Tamanduateí. A polícia logo apareceu e me abordou com a repressão. Então eu disse que estava fazendo um trabalho para a comunidade vizinha, daí veio um gesto simbólico do cidadão que atravessou a rua e me trouxe uma garrafa com bebida e disse que o trabalho estava maravilhoso… Depois dessa a polícia não disse mais nada e saí cantando pneus. Terminei a intervenção mais tranquilamente.

 -Como a galera pode encontrar o “Saci Urbano” na internet? Há comunidade, site etc?

Só depois de um tempo eu reparei que haviam criado uma comunidade no orkut sobre o Saci Urbano com fórum e tudo o mais. Mas eu não fiz nada para o Sasu na internet, só utilizo algumas redes sociais para divulgar as postagens no blogue que registra e divulga algumas de suas aparições na Metrópole. Não gostaria de vir o sasu se tornando uma “Webcelebridade”.

 -Deixe suas considerações finais aos apreciadores da sua arte…

Agradeço às pessoas que conseguiram entender a proposta do meu trabalho. Digo que essas pessoas indiretamente fazem parte desse trabalho, seja opinando, sugerindo, criticando, fotografando e entre outras discretas ações… O trabalho é coletivo, mas eu prefiro agir sozinho na rua. Assumindo qualquer conseqüência, seja ela positiva ou não. E mais uma coisa: eu não gosto de aplausos.

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